segunda-feira, dezembro 26, 2005

Platônico

Uma hora... Uma hora que mais pareceu uma eternidade. Meu coração batendo acelerado. Medo. Pavor, na verdade. Por que eu? Justo eu... A culpa entalada na minha garganta, como se eu sozinha tivesse mudado o rumo da vida dele. Como um trem desgovernado em rota de colisão. Não sabia se ia direto pro tal lugar ou se parava pra vomitar um instante. Fui de uma vez.

- Nana...

Aquele abraço, que só ele tinha. Como se o resto do mundo não pudesse nos encontrar. Toda vez que nos abraçávamos eu sentia como se estivesse completa. Uma eternidade perfeita em um pequeno momento. Nunca mais senti isso. Até o Eduardo.

- Posso falar primeiro?

- Claro. Eu te chamei aqui, mas não sei se realmente sei o que quero falar... Só precisava... te ver...

- Desculpa.

- Não... Pode falar.

- Era isso. Desculpa.

- Pelo o quê?

- Como assim, pelo o que? Por todo o mal que eu te causei...

- Nunca.

- Ai, Ale...

- Calma, Nana... Não quero que você se arrependa de ter seguido seu coração... Você está feliz?

- Muito... Eu amo o seu irmão...

- Eu sei. E ele te ama. Sempre te amou... E eu também. Sempre te amei. Ainda te amo. Você sabe que eu nunca vou deixar de te amar. Por tudo o que você foi pra mim... Sempre vou te amar.

- Eu também te amo. Não foi por ter deixado de te amar que eu...

- Eu sei. Simplesmente... Não era pra ser. Não estava certo. Eu sei disso agora. Há um tempo, já...

- Eu queria tanto falar com você, esses anos todos...

- Eu também. Mas não sabia como, não sabia se poderíamos mesmo ser... Amigos...

- Ale... Nós sempre fomos amigos.

- Incondicionalmente. Talvez tenha sido a pior parte de ter te visto partir. Perdi minha melhor amiga. Ninguém nunca me entendeu como você. Com você eu me sentia...

- Completo.

- Isso...

- Eu sei... Eu também. Nunca mais senti isso...

- Até agora.

- Seu irmão é...

- Quem você estava procurando.

- Mas eu não sabia...

- Nem eu. Eu estava tão... Perdido... Não achava que haveria vida depois de você.

- Você foi...

- Internado? Não... Fui em busca de algo. Que nem você. Acho que nós nos enganamos, sabe... Não teríamos sido felizes. Não fosse sua confusão... Seriam duas vidas arruinadas. Nós éramos tão perfeitos juntos, mas não era...

- Romântico?

- Eu não era aquela metade que faltava na sua vida. E nem você era aquilo que faltava na minha. Você só percebeu que algo estava errado antes de mim.

- E você é...

- Gay? Não sei... Nunca parei pra pensar nisso...

- Sério? Mas você...

- Eu sei... Mas não é desse jeito. Eu não queria você por ser uma mulher linda... Eu queria você. Quem você é. Eu queria ser aquela pessoa que eu era quando nós estávamos juntos.

- Eu também... Você me ouvia no mais absoluto silêncio...

- Cúmplices. Nós éramos cúmplices. É assim agora. Mas eu não estou mais procurando aquele algo a mais. Eu senti sua falta.

- Como eu senti sua falta... E depois do Du... Tudo piorou. Ele é tão parecido com você... E ao mesmo tempo...

- Completamente diferente. Ele foi feito pra você, Nana... O moleque sempre soube disso. Ele ficou tão desolado quando você foi embora... Na época eu não entendi, mas...

- Não sei se você sabe, mas ele me encontrou na...

Ficamos horas conversando. Ainda bem que ele teve a idéia de pedir alguma coisa para comer. Tanto tempo que passamos longe um do outro, remoendo mil coisas, mil palavras nunca ditas, distorcendo outras que falamos em momentos de raiva e confusão... Tanta coisa que deixamos de compartilhar, de viver...

- Depois que você foi embora eu te odiei muito por um segundo. E depois eu senti sua falta por anos e anos. Mas não era exatamente de você, da sua pessoa. Era de tudo que você tinha levado contigo. Tudo que já tinha acontecido, parecia que tinha sido apagado. E todos os nossos planos... É possível apagar algo que nunca chegou a acontecer?

- É... Eu também sempre senti falta de tudo que eu deixei de viver com você. Mas não podia destruir mais a sua vida ficando do seu lado.

- Não quero voltar a esse assunto. Não quero ouvir ou mesmo pedir desculpas. Acho que você deve ter remoído essa história tanto quanto eu. Chega. Eu quero estar na sua vida de novo. Claro, desde que...

- Por favor... Por favor... Volta pra mim, Ale... Eu sei que eu sempre tive no Lucas o meu melhor amigo, mas você... Você me completa. Eu não consigo conversar mil coisas com o Lucas porque ele... Nem sempre eu quero falar... E nem sempre ele consegue me ouvir...

Mais um abraço. Mais uma vez a ordem do universo começava a ser restaurada. Mil toneladas erguidas dos meus ombros, diversos pensamentos que gritavam na minha cabeça foram se esvaindo, eu quase conseguia ouvir um silêncio na minha mente. Quase...

- Você está se sentindo mais leve, né?

- Você ainda lê pensamentos?

- Só os seus. Mas acho que é porque você quer que eu sinta que tem algo de errado. Você quer conversar sobre isso?

- Eu achava que nós tínhamos vindo aqui para falar de você...

- Será?

- Foi por isso que você me chamou, né?

- E foi por isso que você veio? Curiosidade mórbida? Queria saber se tinha sido culpa sua que seu ex-namorado virou gay? Que pretensão a da moça, achar que ela era a única responsável por ter estragado o meu gosto... Fala a verdade... Você pensou que tinha sido tão inesquecivelmente fantástica que nenhuma mulher jamais seria capaz de conquistar o meu coração?

- Para...

- Confessa, Nana... Você queria saber de mim a verdade... Mas também queria falar comigo... Queria ter alguém pra te ouvir...

- Queria... Meu Deus, você tem razão... Eu SOU pretensiosa... Eu vim repetindo mil vezes um pedido de desculpas até chegar aqui...

- Idiota.

- Grosso.

- Eu também repeti mil vezes uma explicação, um pedido de desculpas, tantas coisas... Eu não sabia o que falar. Achava que você ia chegar aqui querendo ouvir isso ou aquilo. Como se fosse obrigação minha, porque eu te liguei, responder a todas as suas perguntas. E tudo que eu queria era te contar a verdade.

- Era tudo o que eu queria ouvir. A verdade.

- E...

- O Du me pediu em casamento.

- O QUE?! Minha mãe sabe disso?!

- Eu disse não...

Ok... A noite ainda ia ser muito longa...

domingo, outubro 09, 2005

Depois do tremor...

Eu lembro quando era pequena e minha prima ganhava aquelas bonecas lindas que faziam coisas diferentes, como dançar, cantar, assoprar bolhinhas de sabão e até patinar. Eu sempre querendo brincar com as tais bonecas, mas morrendo de medo de acontecer alguma coisa de errado justo quando ela estivesse na minha mão. E muitas vezes acontecia da boneca engasgar, dar de cara no chão em vez de ir pra frente, capotar em vez de rodopiar. E lá ficava eu com o maldito pensamento: “Pronto... Quebrei o brinquedo...”. Não estou mudando de assunto, ou evitando falar sobre o fatídico jantar, por mais que goste, e muito, da idéia de nunca mais conversar sobre isso com ninguém. Estou apenas falando sobre mim, já que não faço a mínima idéia de como cada um dos envolvidos na história esteja se sentindo nesse momento. Com exceção do Alê e do marido americano, posso apenas afirmar que todos estão, certamente, confusos... Bastante confusos. Eu não consigo deixar de pensar se fui eu que estraguei o brinquedo... Quer dizer... Seria uma espécie de stress pós-traumático?! Teria eu bagunçado tanto com a cabeça dele que ele tenha desistido de todas as outras mulheres do mundo?! Seria... Culpa minha?! Ou será que ele sempre tinha sido gay mesmo e eu fui apenas uma tentativa dele de seguir o caminho tomado como “normal” pelo resto da sociedade? Sinceramente, não sabia o que era pior... Ter sido uma pessoa tão horrível com a outra a ponto de arruinar a vida dela ou ter passado tanto tempo ao lado de alguém sem nunca tê-la realmente conhecido. Eu brinquei sobre estar sendo egoísta... Acho que eu provavelmente era a única naquela sala que não estava pensando em si mesma. Todos aqueles gritos, todos querendo saber o que tinha dado errado, porque ele estava fazendo aquilo com a família dele... E ninguém pensando nele, no quanto deve ter sido difícil falar a verdade para eles, enquanto ele poderia simplesmente ter passado uma vida inteira fingindo que aquela pessoa do lado dele era apenas um amigo, que ele era uma pessoa diferente. A pessoa que eles queriam que ele fosse. Tantos não fazem isso? Pois ele poderia ser mais um. Em vez disso, estava sendo punido por ser honesto. As pessoas que deveriam amá-lo e protegê-lo, todas aquelas baboseiras que se usam para definir família por aí, estavam ali fazendo com que ele se sentisse como a pessoa mais repugnante da Terra. Sua mãe quase desmaiou, seu avô não sabia se levantava da mesa e ia embora, se batia na cara dele... E o Du... Pura decepção. Como se alguém tivesse roubado toda a sua infância, todos aqueles momentos em que ele tinha pensado em seu irmão mais velho como um exemplo. Não sei a cara que fiz. Duvido que tenha sido a de uma pessoa que está apoiando a outra, de alguém compreensivo e orgulhoso... Mas ninguém estava preparado para aquilo. Justo o Alê... Gay? Não fazia sentido... Não podia ser... Mas isso tudo aconteceu há uma semana atrás. E desde então eu não falei com ninguém sobre o assunto. O Du me deixou em casa, pegou o carro e foi Deus sabe pra onde. Disse que me ligava quando soubesse o que dizer. A noite acabou ali mesmo. Dona Luisa bateu a porta do quarto e aquela foi a sua forma de expulsar todos os seus convidados da sua casa... Seu Alberto já havia saído sem dizer uma palavra, nem mesmo um boa noite. Alê e o marido ouviram o recado e nos lançaram um olhar que parecia dizer “a gente conversa sobre isso depois” e foram embora, me deixando ali sozinha com o Du, que parecia perdido.

- Vamos?

- Ahn?

- Pra casa, Du... Vamos pra casa?

- Eu... Eu vou... Eu te deixo lá.

- E vai pra onde?

- Não sei... Não... Eu...

- Tá... A gente conversa sobre isso depois, vamos...

- Não quero conversar... Quero...

- Você quer que eu vá de táxi? Você pode...

- Não... Eu te deixo lá, vem...

Uma semana. Há uma semana eu não ouço a voz dele. Minha cabeça está um nó. Eu quero falar com alguém sobre isso, mas ao mesmo tempo não quero tocar no assunto. Tenho certeza de que se falar sobre mim as pessoas vão me achar egoísta, pensando na minha responsabilidade ou parcela de culpa, ou o que seja, em vez de estar pensando nele. E se falar sobre ele, provavelmente vão pensar que o estou julgando, quanto a verdade é exatamente o contrário. É tão confuso que nem vale a pena tentar começar a discutir sobre isso. Mesmo sem ter conseguido estabelecer qualquer sentido nos meus pensamentos, sei que eles fazem mais sentido pra mim do que jamais fariam pra outra pessoa me ouvindo. Meu Deus... Do que eu estou falando? Preciso falar com o Du... Preciso saber como ele está... O telefone. Que número é esse? Talvez seja ele. Telefone fixo, pode ser de algum hotel, de algum bar na beira da estrada.

- Alô?

- Nana?

- Du?

- Alê...

- Ahm... Ehr...

- Eu sei... Eu preciso falar com alguém. Será que eu posso falar com você?

- É... Claro. Me encontra naquele café onde a gente se esbarrou aquele dia. Daqui a uma hora. Pode ser?

- Daqui a uma hora...

quarta-feira, agosto 24, 2005

Reconhecendo a família

Acho que nunca fiquei tão nervosa antes de ir pra algum lugar. E olha que eu já conhecia todas as pessoas envolvidas naquele jantar. Dona Luisa, a mãe do Du. Mulher séria, pulso firme. Praticamente criou os filhos sozinha, depois que o marido morreu. Alexandre... Meu ex. História complicada. Razão pela qual eu não queria voltar àquela casa nunca mais. Mas pelo Du... Se eu realmente quiser ficar com ele pra sempre... É um daqueles males necessários. Talvez eu realmente merecesse ser devorada como prato principal. Afinal, o Alê realmente ficou muito mal por minha causa... Não sei... Só sei que não queria começar uma guerra dentro da família.

- Nic, me ajuda.

- Eu já te falei. Escolhe o lilás. Fica lindo com aquele brinco que o Du te deu. E combina com aquela bolsa que eu te emprestei. O sapato...

- Esse aqui?

- Perfeito!

- Mesmo?!

- Claro... Ela não vai ter coragem de arrancar seu coração nesse vestido. Primeiro porque você tá tão linda e delicada nele. Segundo porque ela vai morrer de remorso se rasgar um milímetro dessa obra de arte. Assim que chegou na loja eu sabia que precisava trazer pra você.

- Brigada, amiga...

- Que nada... Considere o seu presente de boa sorte.

- Nossa... Não sei o que eu faria sem você aqui.

- Provavelmente você iria de rabo de cavalo e chinelo pro jantar. Eu sou a sua fada madrinha, convenhamos...

- Verdade. Agora me ajuda com esse cabelo, antes que eu vomite de nervoso...

- Vem cá... O Du já deve estar chegando. Tem quanto tempo que ele ligou?

- Uma meia hora. Ele disse que tava saindo do trabalho, ia passar pra comprar um vinho e eu pedi pra ele trazer também umas flores pra levar pra mãe dele.

- Boa... Comprar a sogra com flores é uma ótima idéia. Se ela não gostar de você, pelo menos a vaca tem o que comer...

- Ai, Nic...

- Ah... Uma piadinha pra ir descontraindo. Essa sua cara de náusea tá me dando vontade de vomitar...

- Desculpa. Agora me fala... E o Lucas...

- Ai... Nem fala nisso, que eu tenho medo de estragar as coisas...

- Vocês tão mesmo se entendendo?

- Parece que sim, né?!

- É... Parece... Então é na sua casa que ele dorme a semana inteira?

- É... De nada... Imagino que isso esteja sendo muito prático pra você e pro Du...

- Verdade... Muuuuuito prático...

- Safada...

- Olha quem tá falando...

A porta abre. Era o Du.

- Nana?!

- No quarto... A Nic tá me arrumando...

- Que lindas... Brincando de boneca... Vou tomar um banho pra me arrumar, enquanto isso vocês terminam aí.

- Tudo bem... Comprei um sabonete daqueles que você gostou.

- Jura?! Ah... Já ia me esquecendo. Minha mãe comentou que aparentemente o Alexandre também tava querendo convocar um jantar desses, pra conversar com a família, então ela juntou tudo. Ou seja... Meu avô vai estar lá.

- Ai... Seu avô? Jura??

- Relaxa... Ele sempre gostou de você.

- Claro. Até o acontecido, que fez com que ele quase mandasse o exército atrás de mim.

- Meu Deus, que exagero...

- Exagero?! Seu avô ligou pra minha avó pra dizer que eu era uma degenerada... Por favor, né?!

- De qualquer forma... Relaxa... Agora eu vou tomar meu banho maravilhoso com meu sabonete novo...

Adoro esse jeito dele de ficar feliz com coisas tão pequenas... Tão bobinhas...

- Você vai passar algum batom em mim?

- Não. Um gloss levinho...

- Hum... Ok...

- Confia em mim... Vai ficar mais delicada...

- Eu confio em você... Totalmente.

- Um pouquinho de blush... Um pouquinho de gloss... Faz assim com a boca...

- Assim?

- É... Pronto!

- É isso?! Tô pronta?

- Olha, ué...

- Nossa, Nic... Você é um gênio!!

- Eu sei... Eu te disse que eu vim pra salvar a sua vida!

- Sua modéstia sempre me comove... Vou chamar o Du...

- Deixa eu sair do quarto pra ele poder ficar pelado aqui dentro, se arrumar...

Em 10 minutos ele já tava pronto, parecendo um príncipe instantâneo... Era só adicionar água e pronto. Por que mulheres são tão mais complicadas?!

- Você tá linda...

- Sério?

- Mudei de idéia... Vamos pra outro lugar. Não quero gastar você com aquela família...

- Por mim tá ótimo...

- Ai... Quem dera. A gente precisa fazer isso.

- Tem certeza? E se a gente fugir, arrumar as malas e ir pra outro país...

- A gente pensa nisso assim que sair daqui. Agora toca a campainha...

- Tá bem...

Toquei a campainha. A mãe dele abre a porta e o abraça como se fosse um filho seqüestrado voltando pra casa depois de pago o resgate... Infelizmente ela não estava tão feliz em me ver, mas também não foi tão rude quanto eu imaginava. Foi... Normal. Como se realmente estivesse conhecendo uma nova nora pela primeira vez. Aquele clássico pé atrás, como se estivesse lidando com uma ladra. Uma pilantra querendo roubar seu precioso filhinho. O jantar foi ótimo. Ninguém tentou me espetar com o garfo, ou cortar com a faca, o que pra mim já era mais do que eu esperava. Lá estavam eles... Dona Luisa, Seu Alberto, Alexandre e um amigo, um tal de Louis, e o Eduardo. Boa comida, boa conversa... Acho que estavam todos evitando conversar sobre a minha presença ali. Era uma estranha sensação de dejà vu... Afinal, eu já havia sido apresentada a eles como namorada de um dos meninos. O outro... E agora eu estava pulando pro mais novinho... Me sentia uma criminosa... Talvez fosse hora de conversar sobre o elefante branco na sala... Dei uma olhada pro Eduardo, mas antes que ele pudesse abrir a boca...

- Bem... Eu imagino que todos estejam esperando algum grande aviso, afinal não é toda hora que nos reunimos assim como família. Mamãe, vovô... Du... Nana, que bom que você está aqui.

- Eu estou muito feliz de estar aqui também, Alê...

- Que bom... Fico feliz de coração. Como vocês já sabem, eu passei esses 7 últimos meses nos EUA, trabalhando e cuidando de mim, da minha saúde. O Louis foi um amigo muito importante que eu já conhecia de correspondências e e-mails, mas que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente quando eu fui pra Califórnia. Com a ajuda dele, eu consegui superar o trauma que foi perder a mulher da minha vida. E eu agora estou tão feliz, tão em paz, que eu nem me importo de saber que ela está namorando o meu irmão.

Nunca tinha tido a oportunidade de testemunhar um engasgo coletivo. Acho que as únicas pessoas que não passaram pelo desprazer de quase cuspir suas bebidas foram o Alê e o Louis...

- Eu fico feliz que eles estejam juntos, porque só mesmo um cego não veria o quanto eles estão apaixonados. Espero que a vida de vocês seja repleta de felicidade e que vocês encontrem o mesmo que eu encontrei. Mãe, Vô, Nana, Du... Eu e o Louis... Nos casamos.

Puxa... Por essa eu não esperava...

segunda-feira, agosto 08, 2005

Um novo arranjo...

O Eduardo já se mudou há umas 2 semanas atrás. O Lucas não encrencou com a idéia, acho que o fato de ele estar tentando se entender com a Nicole provavelmente estava ajudando. Ele acabava passando mais tempo lá do que no apartamento. Morar com o Du tem sido perfeito. O único problema é a preocupação excessiva. Eu sei que ele quer o melhor pra mim, todos 3 querem. Mas como ele é o único que realmente tem ficado comigo, tem dedicado todo o tempo livre dele a cuidar de mim, é ele que acaba quase me enlouquecendo uma boa parte do tempo. Quem quer que tenha dito que o tempo cura todas as feridas estava enganado. Não cura porra nenhuma. Acho que você acaba se forçando a esquecer, mas isso funciona melhor quando não tem ninguém pra ficar te lembrando a cada 5 minutos daquilo que você está tentando esquecer a todo custo. Ficam todos te perguntando se você está melhor, se está tudo bem, se você precisa de alguma coisa. Preciso, sim. Que vocês fiquem quietos e parem de falar sobre isso. Claro que algumas coisas não poderiam simplesmente ser deixadas de lado. Por isso eu e Du resolvemos procurar um especialista pra checar o que o outro médico sugeriu. Será que algum dia nós vamos poder pensar em ter filhos? Eu nem me preocuparia em tentar descobrir isso, não fosse aquela pergunta. Se o Du estava levando nosso relacionamento tão a sério a ponto de pensar em casamento de forma tão decidida... Todos esses detalhes precisavam ser resolvidos, ou ao menos discutidos, pensados... Filhos ou não? Casa ou apartamento? Rio ou outro pedaço do Brasil? Quem sabe do mundo? E tudo isso em tão pouco tempo... Sem que a família dele nem mesmo soubesse sobre nós. Na minha cabeça essa seria a primeira coisa a ser feita. Abrir o jogo com a família dele. Mas o Du não queria nem saber deles, ou do que eles iriam pensar. Nunca vi alguém tão certo do que quer. E tão novo. Ele às vezes parece mais velho que eu. Tão seguro. E eu aqui... Tão medrosa.

- Nana?

- Oi, Du.

- Você marcou com a médica?

- Marquei. Tá tudo certo. Sexta-feira agora. Você vai poder chegar um pouco atrasado no trabalho?

- Claro. Aviso hoje pra não ter problemas. Tá tudo bem?

- Tá.

- Você tá com uma carinha meio estranha.

- Cansaço.

- Mesmo?

- É... Não tenho dormido direito. E nem você... Tá sempre acordado cuidando de mim.

- Eu tô preocupado com você, ora... Tem algum problema nisso? Você acabou de passar por uma situação muito difícil...

- Nós dois passamos, Du. Só que você age como fosse algo só meu, como se você não tivesse nada a ver com isso. Tá tão preocupado comigo que nem se permite sofrer, ficar triste... Eu não preciso que você seja forte por nós dois. Eu não quero que você fique cuidando de mim o tempo inteiro, como se eu fosse uma bonequinha de porcelana dentro de uma redoma de vidro.

- Não é isso...

- Du... Eu sei que foi horrível, eu tava lá... Só queria que você começasse a agir como se também estivesse. Eu sei que eu escondi tudo de você, já te pedi mil desculpas por isso, mas...

- Não importa que você tenha escondido. Quando você falou... Foi como se...

Ele começou a chorar, nem acreditei... Pela primeira vez desde aquele dia no hospital ele parecia estar vivo novamente.

- Eu nunca imaginei que você fosse deixar de me falar... Por qualquer razão... E mesmo não tendo sido... Um pedaço de nós dois... Nana...

- Du... Eu sei...

- Eu não posso te perder...

- Não vai...

- Também não quero mais viver assim.

- Assim como? Aqui? Eu já disse que...

- Não... Escondido...

- Ah...

- Chega. Não posso mais viver com medo do meu irmão descobrir que a gente tá junto, da minha mãe... Chega. A gente tá junto e ponto. E como eu não vou a lugar nenhum, acho que a gente deveria contar isso pra eles.

- Mesmo?

- Mesmo.

- Tem certeza?

- Claro... Eu quero que você seja a minha esposa. Mesmo que a minha família tenha problemas com isso, vai ter que engolir as suas idiotices ou... Cada um segue pro seu lado. Eu sei exatamente onde eu quero ficar...

- Ai, Du... Não quero causar uma guerra entre você e a sua família. Eu sempre gostei tanto de todo mundo... Até...

- Eu sei. Mas isso já tem muito tempo. Eles vão ter que aprender que a vida segue. E que você não é o demônio...

- Ai, nem brinca com isso...

- Tá... Desculpa. Eu vou ligar pra minha mãe e acertar tudo com ela. Hoje ou amanhã?

- Amanhã... Pra eu ter tempo de me preparar psicologicamente pra tudo isso.

- Ok... Vou ligar lá do trabalho. Tô saindo.

- Te amo.

- Também, linda...

- Bom dia!! Bom trabalho...

- Brigado...

Muitos beijos e muitos abraços depois, ele saiu pro trabalho e eu liguei pra Nicole pra contar a novidade mais absurda das últimas semanas. E ela sugeriu que fôssemos tomar um sundae depois da minha única aula do dia. Desde o acontecido eu acabei pedindo pra reduzir um pouco a minha carga horária. Eles disseram que não teria problema em tirar umas férias, mas dar aula é uma das formas de me manter sã. Só não estou em condições de pegar tão pesado quanto eu costumava pegar.

- Oiê!!

- Se você me perguntar se está tudo bem ou passar a mão na minha cabeça...

- Ok... Ok... Que mau-humor...

- Nem vem, Nic...

- Tá... Eu sei que você não agüenta mais... Mas vem cá, amiga!!! Me conta!!

- É!! Você acredita??

- Ele chorou mesmo?

- Chorou, cara... Tadinho... Me senti tão mal...

- Não sei porque. Você foi sincera com ele. Isso é ótimo. Ele tava prendendo aquilo há 2 semanas, faz mal!!

- Eu sei... Ainda assim...

- Ainda assim nada. Você agiu certo. E aí?! Preparada?

- De jeito nenhum... Imagina?! Acho que vai ser um massacre. Estou me sentindo uma ovelhinha...

- Prestes a ser jogada aos leões... Hahahahahaha... Imagino...

- Pouco provável... Nem eu mesma estou conseguindo imaginar exatamente o que pode acontecer. Só fico pensando na cara da dona Luisa... Na cara do... Alexandre?!

- Esqueceu o nome do menino, Nana? Acho que o stress não tá te fazendo bem mesmo...

- Não, Nic... Ahn... Oi, Alê...

- Er... Oi, Nana... Você tá... Você tá ótima...

- Nossa, você também, tá ótimo... Tá com uma cara super...

- É, ahn... Oi...

- Ai! Desculpa... Nicole, esse é o Alexandre.

- Oi, Alexandre... Prazer...

- Prazer, Nicole... Puxa, Nana... Eu tô super com pressa agora, mas gostaria muito de te ver um dia desses... Vou te dar meu telefone, me dá o seu também. Vamos marcar alguma coisa, um café, sei lá. Você tá trabalhando aqui perto?

- É... Tô... Naquela academia que tem na esquina.

- A de yoga?

- É...

- Nossa, que legal... Você realmente continuou fazendo o que sempre gostou... Isso é bom. Cara... A gente tem tanta coisa pra conversar, né? Tanto tempo...

- É... Tanto tempo... Com certeza... Me liga... A gente marca um café...

- Tá certo. Te ligo, sim... Prazer, Nicole. Tchau, Nana... Bom sundae pra vocês. Tá com uma cara ótima...

- Brigada, Alê... A gente se fala...

Momento silêncio. Choque total. Se eu acreditasse em coincidências... Liguei pro Du. Ele nem tinha conseguido falar com a mãe ainda. Tinha deixado um recado no celular dela, mas ainda não tinha recebido retorno. O Alê não sabia da gente... Bem... Esse jantar ia ser, no mínimo... Interessante...

quarta-feira, julho 27, 2005

E agora?!

Pois bem... Eduardo não sabia do bebê. Ele realmente queria casar comigo? Achava todas aquelas coisas maravilhosas de mim? E agora eu... Nós... O bebê...

- Nana?! Que bebê?! Você tá grávida?!

- Não...

- Não tá?! Não tava?! Não tá mais?! Nana, fala comigo!

- Não tem bebê... Eu não tô, nem nunca tive grávida. Fiz um daqueles testes de farmácia, deu positivo, mas... Era alguma outra coisa, uma alteração hormonal, sei lá... O médico explicou, mas eu já esqueci tudo. Tava tão crente que tava mesmo carregando uma combinação de nós dois aqui dentro que acho que não conseguia pensar mais nada quando achei que tinha perdido...

- Você queria ter esse filho?

- Não sei... Só sei que não queria perder algo que representava o que a gente tem... Eu te amo tanto, Du...

- Ô, Nana... Eu também, sua besta...

- Cara! Eu aqui desse jeito e você me agredindo?!

- É claro... Como você faz uma coisa dessas, me deixar de fora de uma decisão tão importante, tá louca?! Achou que eu fosse fazer o que?! Surtar?

- É... Surtar, ir embora, nunca mais olhar pra trás...

- Nunca... Eu te disse... Queria você pra mim desde aquele dia constrangedor do banheiro... Você foi meu primeiro pensamento a cada velinha de aniversário apagada... Você precisa saber o que significa pra mim, Joanna... Precisa entender que eu encararia qualquer desafio, desde que fosse com você do meu lado... Você é a minha força, a minha inspiração... Você sabe disso, né?!

Difícil conter as lágrimas nessa hora... Você quer falar, mas está praticamente se afogando no seu próprio choro, soluçando, querendo esconder o rosto. De onde vem essa idéia de que chorar é sinal de fraqueza?! De onde surgiu essa necessidade de ser invulnerável, invencível... não humano?!

- Eu... Eu quero saber... Te juro que quero nunca duvidar disso, mas eu me senti tão perdida, como se as coisas estivessem caindo na minha cabeça, de forma totalmente inesperada... Você com seu novo emprego, eu... Não sabia se estava preparada, a gente nunca discutiu sobre isso, ter filhos, casar...

- Nana... Com você eu quero tudo que esse mundo puder nos oferecer... Eu quero ser feliz do seu lado e te fazer feliz também... Não importa como seja isso. Não dá pra planejar cada passo da sua vida, quando cada coisa vai acontecer. Certas coisas fogem do nosso controle, é inevitável, linda... Ou você acha que eu planejei me apaixonar loucamente pela namorada do meu irmão?! Você foi uma dessas surpresas da vida que a gente não pode deixar passar por causa de besteiras como essa história de razão... Não conseguia mais ser racional depois de ter visto seu rosto, seu sorriso, seu jeito de mexer no cabelo, de andar. Até a forma como você respira é mágica... Você é a mulher mais fantástica que eu já conheci... Eu agradeço a Deus por ter deixado que você cruzasse o meu caminho todos os dias...

- Du...

- Nana... É sério... Não precisa me falar nada de volta, não precisa nem responder à pergunta que eu te fiz antes no restaurante. Eu entendo que você esteja com a cabeça cheia agora. Depois a gente conversa sobre isso, sobre tudo... Eu só preciso saber uma coisa.

- Qualquer coisa...

- Você quer que eu volte pro Rio? Eu recebi uma proposta maravilhosa pra ficar por aqui e com toda essa confusão eu disse não.

- Mas...

- E eles me ligaram de novo e melhoraram a oferta...

- É melhor que a de São Paulo?!

- Bem melhor...

- Volta, Du... Fica no Rio comigo...

- Eu volto... Se é isso que você quer, eu volto...

- E o que você quer?!

- Eu queria voltar, mas não sabia se você ainda queria estar comigo. Se você terminasse tudo, se dissesse não ao pedido, eu teria ficado em São Paulo... A pergunta era, na verdade, se você ainda quer estar comigo...

- Du... Eu posso até estar confusa, mas não sou burra... Nem cega... É claro que eu quero estar com você... É a única certeza que eu tenho... Mas quanto à pergunta...

- Já disse que não precisa me responder agora. Eu entendo que você possa querer mais tempo pra organizar tudo na sua cabeça... Eu vou dar uma ligada pra firma, aceitar a proposta deles. Depois vou passar em casa pra resolver uns detalhes. Só quero decidir se volto pra casa da minha mãe, se alugo um apartamento sozinho, preciso organizar umas coisas na minha cabeça também...

- Não...

- Não?!

- Não... Você não vai morar com a sua mãe de novo... Vem morar comigo...

- Com você?! E o Lucas?

- Só por enquanto. Quando tudo se acertar a gente aluga um apartamento junto. Eu e você. Só nós dois.

- Mesmo? Isso...

- Não é uma resposta ainda. Deixa eu passar o susto...

- Claro... Tem certeza de que é isso que você quer?

- Tenho... Leva as suas coisas lá pra casa... Eu vou conversar com o Lucas, ele vai entender... Eu só queria te falar uma coisa...

- Eu queria te perguntar uma coisa também.

- Pergunta.

- Você quer ter um filho? Digo... Agora?

- Não... É sobre isso que... Du... O médico disse que foi bom eu ter achado que isso estava acontecendo, o aborto, porque assim eu pude vir ao hospital e... Não é certo, mas... É possível que eu não possa ter filhos...

- Nana... Você...

- Não... Eu... Não sei... Se estou aliviada, frustrada... É horrível dizer isso, eu sei, mas...

- Eu entendo... Eu acho...

- Me abraça?

- Vem cá, linda...

Era tanta coisa pra pensar... Tantas decisões difíceis pra tomar... Pelo menos eu tenho o Du do meu lado... Não torna nada mais fácil, mas menos... Sozinho...

terça-feira, julho 19, 2005

De volta pra casa

O tempo passava e a cada dia ficava mais difícil ficar longe do Du, escondendo tudo o que estava acontecendo dele. Não era justo, eu sabia disso, mas também não era justo comigo ter que decidir que rumo tomar na minha vida. E, pior ainda, na vida de uma outra pessoa, completamente inocente. Já se fora quase um mês quando eu decidi ligar pro Du e dizer que estava voltando pra casa. E que a gente precisava conversar. Ele foi super compreensivo, o que me deu certa paz de espírito e uma confiança muito forte quanto à decisão que tinha tomado. Seria tão bom se realmente tivesse sido assim tão simples...

- Nana...

- Desculpa ter ficado esse tempo todo sem ligar, era proibido manter qualquer tipo de contato com o mundo exterior...

- Eu imagino, mas foi horrível ficar aqui sem você. Especialmente em uma cidade nova, um emprego novo...

- Como está São Paulo?

- Tá legal, mas eu tô recebendo várias ofertas no Rio, queria até conversar com você sobre isso. De repente aproveitar que ainda não tá nada muito certo aqui em Sampa... Posso voltar pra casa e a gente pode até morar junto...

- Claro, a gente conversa assim que eu chegar. Tô indo pegar meu ônibus agora. Devo estar em casa em umas 4 horas, eu acho. Já vai ter dado tempo de arrumar tudo, me ajeitar...

- Eu devo estar pegando o vôo que sai daqui a uma hora. Vou estar chegando quase junto com você. Me liga quando pisar no Rio?

- Assim que o ônibus começar a estacionar na Rodoviária...

- Te amo, Nana...

- Também... Tô morrendo de saudades...

- Nem fala... Preciso muito de você, de te ver, sentir seu cheiro...

- Falta pouco...

- Falta muito, é tempo demais...

- Fecha os olhos e pensa que eu tô do seu lado. Tenho que correr, meu ônibus está começando a se preparar pra partir.
- Corre, então...

- E você vem voando...

Mal podia acreditar que tudo estava se ajeitando. Quem sabe... Eu e o Du morando juntos, um filhinho ou uma filhinha na casa... Só de estar ao lado dele... Já seria perfeito. Não sei como o Lucas ia ficar com a idéia de me ver saindo de casa, mas sei que ele ficaria feliz por mim. É... Até que as coisas estavam dando certo. Mas essa história não acabou. Nem de perto...

- Nic?

- Nana?! Meu Deus!!

- Eu sei... Tô voltando pra casa agora.

- Você já decidiu o que vai fazer?

- Já. Decidi que vou contar pro Du. A gente vai conversar hoje.

- Que lindo, amiga... Vai dar tudo certo, tenho certeza.

- E o Lucas? Tá tudo bem?

- Tá. A gente tem conversado bastante, acho que toda essa confusão com você acabou dando uma boa perspectiva pra cabeça dura dele.

- Isso é bom... O Lucas precisa enxergar um pouco à frente do nariz dele.

- hahaha... Com certeza. Mas eu acho que ele finalmente tá começando a crescer.

- Nossa... Essa eu pago pra ver. O Lucas crescendo... Nunca imaginei que fosse ver isso acontecer.

- Quando você chegar a gente conversa.

- Quer ir direto lá pra casa? Me esperar chegar?

- Pode ser. Já começo a arrumar as coisas pra você. Posso escolher sua roupa pra hoje à noite?

- Pode... Só não sei se vou aceitar a sua escolha...

- Tudo bem... Eu sou uma pessoa compreensiva. Acho que também cresci bastante nos últimos tempos... Você nem vai me reconhecer quando me vir novamente...

- O ônibus está parando num daqueles postinhos de conveniência, vou descer pra ir ao banheiro. A gente se vê daqui a pouco...

- Ok. Beijos, amiga.

- Beijo...

A viagem foi tranqüila, mas parecia que o tempo não passava. Acho que era a ansiedade de ver o Du, de falar logo com ele, de saber o que ele pensava sobre aquilo tudo. Primeiro encontrei com a Nic. Tava morrendo de saudade dela, mas não lembro de quase nada do que conversamos. Era como se estivesse assistindo à minha vida em mudo. Via as imagens, mas os sons... Era como se nem fosse comigo. Se não fôssemos tão boas amigas, acho que ela teria ficado muito puta comigo. Mas ela entendia o que eu estava passando. O Du chegou um pouco adiantado. Ainda bem. A falta dele já estava me consumindo, me corroendo inteira. Tanta coisa pra falar, mas nenhum dos dois conseguiu pronunciar uma palavra sequer. Somente olhei em seus olhos, ele segurou meu rosto com força, como se quisesse ter certeza de que eu estava realmente ali. Não pude evitar. Sentia-me culpada, por tê-lo feito esperar, sem saber o que estava acontecendo. Não era certo, eu sei... Quase desistia de contar quando pensava que as coisas poderiam não correr tão bem, quando imaginava que sua reação poderia ser a de ir embora. Não conseguiria perdê-lo. Era meu maior medo. Ele me abraçou com tanta força, como se tentasse impedir que eu fugisse. Não ia a lugar nenhum, queria dizer-lhe, mas não conseguia falar. Engasgava, sufocava. Chorava tanto... Ele também. Quase desistimos de sair, tão pesado foi o reencontro. Não queria dividi-lo com o resto do mundo, queria trancá-lo comigo em meu quarto e não sair de lá nunca mais. Mas fomos ainda assim. Parecia importante. Me levou para um restaurante pequeno, mas muito romântico, da tia de um amigo dele. Uma mesinha escondida nos esperava num canto. Velas acesas, almofadinhas no chão, do jeito que ele sabia que eu adorava. Não poderia ser mais perfeito se eu tivesse planejado. Era melhor que a minha imaginação.

- Nana...

- Du, que lindo... Eu...

- Não chora de novo, por favor...

- É felicidade... Foi felicidade a noite inteira. E saudade. Muita saudade...

- Meu Deus, eu também. Quase morri sem você.

- Não fala assim...

- Mas é verdade. Eu pensei muito sobre minha vida, sobre a gente enquanto você esteve fora.

- Mesmo?
- Eu fiquei pensando no quanto você me faz feliz, no quanto eu te amo. E eu conversei sobre isso com o Lucas e...

- Você conversou com o Lucas?

- É...

- Enquanto eu tava fora...

- É, a gente conversou bastante e eu disse... Ele disse... Calma... Eu consigo fazer isso...

- Fazer o que, Eduardo? O que você e o Lucas...

Nessa hora o mundo parou. Ele pegou a minha mão, me olhou nos olhos com aquele jeito dele, aquele jeito de quem só consegue enxergar uma pessoa no mundo inteiro, e abriu uma caixinha daquelas pretas, de veludo, com o anel mais lindo dentro. Era...

- Eu não consigo mais imaginar a minha vida sem você, Nana.

- Du... Não faz isso...

- Eu quero cuidar de você, quero que você se sinta segura pra sempre. Quero acordar com você nos meus braços, que o seu rosto seja a primeira coisa que eu veja quando acordar e a última antes de eu ir dormir. Quero sentir seu cheiro em todas as minhas camisas, no meu travesseiro. Quero te fazer feliz pro resto da sua vida, como você tem me feito, desde o momento em que aceitou tomar aquele café comigo...

- Por que você está fazendo isso?

- Nana... Porque eu te amo mais do que tudo nesse mundo. Eu não...

- Não, Du... Não posso deixar você fazer isso. Você acabou de começar seu emprego em São Paulo... O Lucas não deveria ter...

- Nana?! Do que você está falando?!

E eu o deixei sentado sozinho naquele cantinho perfeito de restaurante, aquele pedacinho de mundo que ele construiu só pra mim. Não podia deixá-lo jogar a vida dele inteira no lixo por causa de um erro. Eu percebi isso naquela hora. O Lucas não deveria ter falado nada pra ele, ele não tinha esse direito. E lá estava ele quando eu cheguei em casa... Meu amigo querido. Aquele traíra cretino.

- Lucas, seu imbecil! Você prometeu...

- Nana!! Do que você está falando?! Como foi o jantar?! O Du...

- Lucas, seu...

- Nana?! Nana?! Você tá legal?!

- Não... Eu...

Desmaiei. E o Lucas me levou pro hospital. O Du passou no apartamento me procurando e a Nic disse pra ele onde nós estávamos. Ele correu pra me procurar.

- Nana?

- Du, desculpa...

- Não... Não pensa nisso agora, você tá melhor? O que aconteceu?!

- Eu não deveria ter surtado com você daquele jeito, eu só queria ter podido conversar com você sobre o bebê antes de... Mas agora...

- Nana, não chora... Que?! Bebê?! Que bebê?!?!

Como eu disse... Que bom seria se tivesse sido tudo mais simples...

segunda-feira, julho 11, 2005

Surpresa II – mais tarde...

Meu telefone tocou antes mesmo que o Lucas pudesse fazer qualquer comentário. Era o Du. Obviamente...

- Nana?

- Oi, Du!

Mesmo disfarçando a voz, não dava pra esconder que algo estava errado...

- Tá tudo bem?

- Tá. Me machuquei tentando ajudar a Nicole a guardar umas coisas, perdi o equilíbrio e caí da escada. Nada demais...

- É só isso mesmo?!

- É, claro... Tá tudo bem, pode falar...

- Só queria saber se tá tudo certo pra hoje à noite. Tô terminando de organizar as coisas aqui e queria confirmar.

- Hoje à noite? Não sei se vai ser uma boa idéia, eu tô ficando com uma dorzinha chata de cabeça, talvez tenha sido por causa da queda, não sei...

- Nana...

- Eu juro que tá tudo bem, Du... É só uma dor de cabeça...

- Então... Eu posso passar na sua casa mais tarde, talvez levar alguma coisa pra gente comer... Um filme... Que tal?

- Melhor não, amanhã a gente se fala... Eu te ligo assim que estiver me sentindo melhor. Prometo...

- Se você diz que está tudo bem, então tá... Me liga quando puder...

- Eu sei que você queria comemorar o lance de São Paulo e conversar, mas eu não acho que vá ser uma companhia legal pra você hoje. Não quero estragar seu momento...

- Tá bem... Te amo...

- Eu também...

Meu Deus... O que eu ia fazer agora?! Ir ao médico? Falar pro Du? Justo agora?! Ele consegue o emprego dos sonhos dele e eu arranjo essa confusão pra ele se afundar... Que merda!!! Que merda!!!!!!!!!!! Que meeeeeeeeeeeeerdaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!! Além do que, eu nem sabia se realmente queria ter filhos agora. Ou mesmo algum dia. Nunca pensei sobre isso. Com o meu relacionamento com a minha mãe... E se fosse algo genético?! Será que eu seria uma boa mãe? Será que o Du seria um bom pai? Com certeza seria... Mas será que ele quer ser pai? Será que ele quer um compromisso desses, tão sério, justo agora?! Comigo?! Era tanta coisa pra pensar... E eu sem vontade alguma de pensar am qualquer coisa que fosse... Nada... Nada mesmo...

- Nana?

- Hum?!

- Você tá bem? Ficou uns dez minutos só olhando pra parede, sem falar nada, sem piscar, parecia em coma... Tá tudo legal com o Eduardo, com você?

- Tá... Tá... Tá tudo legal... O Du... Lucas... O que eu vou fazer? Eu não sei o que fazer agora... Não tô preparada pra uma coisa dessas nesse momento, não sei... Nunca pensei... Não planejei...

- Nana, você vai ter que falar com o Du, conversar com ele sobre isso, amiga... Não tem outro caminho, outra possibilidade.

- Ela tem razão, Nana... A Nic tem razão...

Que ótimo... Ao menos essa cagada estava ajudando alguém. O Lucas e a Nicole não estavam querendo se matar. Estavam até sendo bastante civilizados. O Lucas a chamou de Nic...

- Lucas...

- Fala...

- Eu preciso que você me prometa que não vai falar nada com o Du.

- Nana...

- Não, Lucas... É a minha vida, eu decido como agir, o que fazer. Não quero falar nada com ele até conseguir processar a idéia, ao menos considerar todas possibilidades, opções... Eu preciso saber o que eu quero, o que eu posso, o que eu estou disposta... Não quero ter que fazer nada disso com outra pessoa tentando pensar por mim.

- Tá... Eu só acho que...

- Eu não tô pedindo a sua opinião agora, Lucas... Só tô te pedindo pra me respeitar e prometer que não vai falar nada com o Du antes que eu fale. Quando eu estiver pronta.

- Eu prometo...

- Eu também, Nana, mesmo que eu não conheça o seu namorado, nem tenha qualquer possibilidade de falar com ele sobre isso ou outro assunto... Se isso vai te deixar mais tranqüila nesse momento... Eu te prometo... Tá?

- Brigada, Nic... Brigada, gente... Eu acho que vou... Sei lá... Vou dar uma volta, tentar esfriar a cabeça...

- Quer companhia? Eu posso ir com vc, ou de repente a Nic...

- Não... Eu quero ficar sozinha agora...

Eu andei até olhar pro lado e não saber mais onde estava. Tive que pedir direções pra voltar pra casa. Quando cheguei na porta do apartamento não queria nem entrar. Voltei pra casa da Nic e acabei dormindo por lá. Não liguei pro Du no dia seguinte. Mandei uma mensagem pra ele avisando que tinha precisado ir às pressas pra um retiro de yoga, uma espécie de especialização, aperfeiçoamento. Fiquei mais dois dias na casa da Nic e arrumei as malas pra ir pra casa da minha prima em Petrópolis. Pedi um tempo no trabalho, uma outra menina vai cuidar das minhas turmas. Estava seriamente perdida e precisava me encontrar, ao menos encontrar um novo caminho. Acho que li em algum lugar que quando não se sabe onde se quer chegar, qualquer estrada serve. Essa sou eu. Estou seguindo qualquer estrada nesse momento pra tentar reencontrar meu eixo. Não sei o que eu quero, mas sei que nada mais parece estar no lugar certo. Pela primeira vez na minha vida algo está acontecendo fora dos meus planos...